Confissões de uma árvore.

13 de junho de 2011
...um mundo austero ao meu redor toma-me minha fração de centavo que resta na carteira, e suga-me do inicio ao fim minhas ultimas gotas de água.
Fui semente enterrada a sete palmos. Rejeitei a chuva que poderia me apodrecer e escolhi viver com o sol. Nasci forte, como uma víbora. Tive raízes a mil metros debaixo da terra. Cresci, amadureci, dei frutos e sorrisos. Podaram-me as folhas, as amizades, as forças que me restavam. Colheram de mim tudo o que podiam e derrubaram-me como árvore do cerrado. Vi-me caída sobre detritos, já não servia sequer para o fogo da lareira, posta no canto da sala.

Deitada sobre o solo, e grama fria coberta pelo orvalho da manhã, já sentia as pedras jogadas sobre mim e as crianças que iam para a escola passando e pisando sobre minhas ultimas carcaças, como se eu não existisse ali.
Foram dias, foram noites e eu não significava mais nada, além de um tronco seco com as raízes fracas de mais para por me de pé. Lembrei-me dos dias, em que fui semente, tive adubo e água abundantemente que me fortalecia. Cuidaram-me como um bebê indefeso, e agora estava eu lá, sozinha.

O sol raiava no céu, a cada instante com mais intensidade, fazendo me secar as ultimas forças. Entreguei-me como se não houvesse mais saída. O céu se escureceu, nuvens vieram não brancas, mas azuladas com tom de um cinza pesado, carregadas. Ouvi estrondos, como se o céu fosse partir sobre mim, tive certeza que era o meu fim. Jorrou sobre mim, gotas límpidas de uma água doce, decompus-me.

Abri os olhos aos poucos, e me senti coberta de terra molhada. O pânico tomou conta de mim, mas aos poucos me senti nascendo novamente, e percebi que tudo não passava de um ciclo e que eu precisava realmente da chuva que rejeitei no inicio da minha vida, para viver. Colocando-me no lugar da árvore por um dia, percebi o quanto necessito da chuva, de você, e que posso ter tomado as escolhas erradas, escolhido o sol, mas de quem eu realmente preciso é você, da chuva.

4 comentários:

Vinícius Paulo disse...

Lindo texto
Ótimo blog

Angélica Lada disse...

Obrigada :D

Maria Beatriz de Castro disse...

Nossa, lindo! Muito muito intenso, interessante. Como se todos nós fôssemos árvores. A metáfora ficou ótima! Beijo!

http://biacentrismo.blogspot.com

Angélica Lada disse...

Sim sim, olhando de um angulo podemos nos compara muito bem com uma arvore